críticrônica de Um Ser Palhaço
A mais antagônica das criaturas, o homem, antes de ser um, é dois. Ou mais. Quanto de angústia e paciência é necessário para pintar o palhaço de inocência, a falsa inocência do palhaço? Quanto de desespero e frustração é preciso para validar a cinza pele do homem, pele de cobra velha, que se cansou de trocar as vestes?
À meia boca os atores sussurram, constroem personagens mancos, criaturas pela metade. Ora mentira encantada, ora secura, verdade. Com meios olhares os atores urram, escancaram o peito já meio seco, por muito aberto, e deixam que a platéia lhes coma a alma. Alma de palhaço e de homem. Alma de quem enxerga de olhos vendados, mãos espalmadas, sorriso aberto, salgado.
E seguem cegos os atores, sendo palhaços, homens e putas, deixando que a razão padeça ou seque num canto escondido da coxia, enquanto a emoção impera. Bailam pelo texto com línguas desesperadas, beijam seus personagens na nuca e se fundem numa quimera assimétrica, metade homens, metade palhaços. Metade cegueira, metade clareza.
Com esmero e suor, revestem de beleza a decadência dos humanos amputados e falhos de Tarcízio Dalpra Jr., tão reais, tão oníricos. Assustam. Assustam porque somos nós que nascemos em seus textos. E ele, impiedoso, nos desnuda frente ao nosso olhar infantil de platéia. Metade carinho, metade maldade. Metade missão, metade destroços. Metade gênio, metade sorte.
E é preciso calma para se catar as migalhas entre a poesia e formar o todo oculto. O jogo entre corpo e alma, a dança entre vida e morte, o corte que nos separa em mil porções distintas. Pois só com esmero, calma e leveza, junta-se os cacos, mescla-se as tintas, finda-se a obra.
Mas antes seguimos, platéia antagônica, ora adorando nossos narizes vermelhos, ora nos negando o peito, espumando alcatrão em assertivas lógicas. Impossível optar por um personagem, uma bandeira, uma solução. Afinal, somos assim, meio cérebro, meio coração. Meio cegos. E no fim já com as mãos machucadas de tanto aplaudir, tanto negar, fica a certeza: mais que ser um, um ser é mais.
Filipe Galvão | Poeta-dramaturgo-jornalista-amigo



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